Conselhos de Arquitetura de vários países assinam carta em favor do Acordo de Paris

Manifestação de iniciativa do Instituto Americano de Arquitetos (AIA) foi provocada pelo anúncio do presidente dos Estados Unidos de retirada do país do acordo climático

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Carta em prol do Acordo de Paris foi assinada por conselhos de Arquitetura de vários países

 

Cerca de vinte Conselhos federais de Arquitetura do mundo todo, entre eles o CAU/BR, assinaram manifesto pelo cumprimento do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas. O documento foi redigido pelo Instituto Americano de Arquitetos (AIA) depois que o presidente dos EUA anunciou que o país vai sair do acordo. “Estou disposto a renegociar outro favorável aos Estados Unidos, mas que seja justo para os trabalhadores, contribuintes e empresas. É hora de colocar Youngstown, Detroit e Pittsburgh à frente de Paris”, afirmou Donald Trump no último dia 01/06. A decisão deve ser formalizada os próximos dias.

A carta divulgada pelas entidades defende que “O Acordo de Paris traça o caminho para um futuro sustentável. Estamos fazendo a nossa parte e continuaremos. Essa é a base do Imperativo 2050, aprovado pela União Internacional de Arquitetos no Congresso Mundial em Durban, África do Sul. Nessa declaração de 2014, a comunidade mundial de Arquitetura se compromete a implementar estratégias eficientes em carbono e sistemas renováveis”. A publicação destaca ainda o papel decisivo do setor na produção de gases efeito estufa, já que “as áreas urbanas são responsáveis por 70% do consumo global de energia e de emissões de CO2, especialmente das construções.”

Leia aqui a íntegra do documento.

Na visão de Thomas Vonier, presidente do AIA, “os Estados Unidos devem permanecer na liderança da batalha para cessar práticas perigosas e desnecessárias que prejudicam o planeta e seu clima. Devemos atuar tanto nas questões ambientais quanto nos interesses econômicos nacionais. Em vez de ajudar nossa economia, como afirma o governo, sair do Acordo de Paris nos colocará atrás dos nossos principais concorrentes globais”.

ESPECIALISTAS BRASILEIROS

De acordo com o conselheiro da UIA pelas Américas e ouvidor-geral do CAU/BR, Roberto Simon, a atitude do AIA demonstra que a decisão não tem o aval de toda a sociedade dos EUA. “A política dos Estados Unidos sob o governo do presidente Trump impõe uma hipoteca gigantesca, praticamente impagável, ao planeta. A saída dos Estados Unidos cria um obstáculo imenso à redução da emissão de gases estufa para a qual todos se comprometeram. Infelizmente, as cidades americanas, nesse contexto, continuarão contribuindo com um alto índice para o aquecimento global”, afirma.

O coordenador da Comissão Especial de Relações Internacionais do CAU/BR, Fernando Diniz, considera essencial a convergência dos conselhos de Arquitetura em torno da questão. “A saída dos EUA é negativa para o combate ao aquecimento global, que é um problema sério para nossas cidades. Esse manifesto do AIA mostra que essa não é a posição da sociedade americana como um todo. É muito importante esse engajamento e a preocupação dos arquitetos e urbanistas com essas questões de interesse global”, afirma.

Para Lana Jubé, coordenadora da Comissão de Política Urbana e Ambiental do CAU/BR, a saída tem consequências no equilíbrio internacional. “Infelizmente, essa é uma postura esperada vinda do quadro político atual dos Estados Unidos. Não é justificável que um país rico se exclua de um acordo que vai beneficiar todo o planeta. Enquanto esse tipo de postura for adotada, o equilíbrio mundial fica comprometido”.

O jornalista Washington Novaes, colunista especializado em meio ambiente do jornal “O Estado de S. Paulo”, acredita que outros países podem seguir a postura dos EUA e tornar o acordo ineficiente. “É algo que, se realmente efetivado, pode ter consequências mundiais muito graves. Pode estimular outros países a seguir esse caminho, já que o acordo implica restrições ao campo econômico”, explica.


TERMOS DO ACORDO DE PARIS

O Acordo de Paris prevê que os países devem atuar para que o aquecimento global fique limitado a 1,5ºC em relação aos níveis pré-industriais. Com a saída dos Estados Unidos, segundo maior poluidor do mundo, essa meta tem grandes chances de não ser alcançada. O documento foi aprovado em 2015, durante a Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre a Mudança do Clima (UNFCCC/ONU), COP 21. Foi o primeiro acordo da história em que todos os 195 países membros da UNFCCC/ONU se comprometeram em reduzir suas emissões de gases de efeito estufa. Acesse aqui a íntegra.

No documento os EUA se comprometeram a reduzir em 28% a produção de gases de efeito estufa. O compromisso foi firmado pelo então presidente Barack Obama. O país também repassaria cerca de 3 bilhões de dólares (cerca de R$ 10 bilhões) para ajudar países pobres a enfrentar as mudanças climáticas.

No Acordo, o Brasil se comprometeu em reduzir em 37% as emissões de gases de efeito estufa. Veja aqui a íntegra do documento de adesão brasileira.


VIABILIDADE ECONÔMICA

De acordo com o AIA, o Acordo de Paris é economicamente viável também em âmbito doméstico. Estudo divulgado pelo Instituto mostra que edifícios sustentáveis ​​e eficientes em termos energéticos possuem aluguéis de 2% a 8% mais altos, aumento de ocupação de 3% a 10% e aumento do preço de venda de 3% a 12%.

Além disso, a indústria de redução de emissão de carbono está em crescimento. De acordo com outro levantamento, as cerca de 165 mil empresas dos Estados Unidos que atuam no setor de eficiência energética esperam contratar 13% a mais no próximo ano, gerando mais de 245 mil empregos. Somente na Filadélfia, maior cidade do estado da Pensilvânia, 77% dos edifícios precisam de reformas relacionadas à eficiência energética.


ÍNTEGRA DA CARTA

Leia abaixo da íntegra da manifestação, traduzida pelo CAU/BR:

“As organizações profissionais abaixo-assinadas, representando os arquitetos do mundo todo, expressam seu compromisso total e contínuo em projetar um mundo sustentável e atingir os objetivos do Acordo de Paris sobre mudanças climáticas.

As áreas urbanas são responsáveis por 70% do consumo global de energia e de emissões de CO2, especialmente nas construções. Arquitetos adotam a responsabilidade de projetar edifícios e comunidades que reduzam as emissões de gases de efeito estufa; promover ambientes mais saudáveis; proteger e aprimorar os recursos naturais; fornecer água limpa e ar puro; proteger as pessoas dos impactos das mudanças climáticas; e criar comunidades sustentáveis, saudáveis e igualitárias para todos.

Seguir nossos compromissos coletivos para redução dos gases de efeito estufa ajudará a mitigar os riscos evidentes enfrentados pelo nosso planeta e seus habitantes. Não aceitaremos um futuro em que o aumento do nível do mar destruirá mais comunidades; em que desastres naturais devastadores se tornam regra; em que as gerações futuras enfrentam maiores riscos de seca; e em que a doença e a pobreza são agravadas pelos impactos extremos das mudanças climáticas.

O Acordo de Paris traça o caminho para um futuro sustentável. Estamos fazendo a nossa parte e continuaremos. Essa é a base do “Imperativo 2050”, aprovado pela União Internacional de Arquitetos no Congresso Mundial em Durban, África do Sul. Nessa declaração de 2014, a comunidade mundial de Arquitetura se compromete a implementar estratégias eficientes em carbono e sistemas renováveis.

A comunidade de Arquitetura aprovou o “Imperativo 2015” como uma mensagem clara de apoio à Convenção-Quadro das Nações Unidas sobre Mudanças Climáticas (UNFCCC) para mostrar que os arquitetos estão comprometidos com um futuro sustentável e igualitário. Hoje esse compromisso é mais forte do que nunca.

 Em grandes metrópoles e em pequenas cidades ao redor do mundo, os arquitetos estão trabalhando com seus clientes para projetar edifícios e comunidades que utilizam apropriadamente os recursos, protegem a coletividade de danos e melhoram a qualidade de vida. Reafirmamos nosso compromisso de projetar um mundo melhor para todos.

Assinam:

American Institute of Architects (AIA); International Union of Architects (UIA); Africa Union of Architects (AUA); Architects Council of Europe (ACE); Architects Regional Council of Asia (ARCASIA); Federación Panamericana de Asociaciones de Arquitectos (FPAA); Architectural Society of China (ASC); Association of Siamese Architects under Royal Patronage (ASA); Australian Institute of Architects (AUA); Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Brasil (CAU/BR); Colegio de Arquitectos de Costa Rica (CACR); Federación de Colegios de Arquitectos de la República Mexicana (FCARM); Federation of Institutes of Korean Architects (FIKA); Japan Institute of Architects (JIA); Royal Architectural Institute of Canada (RAIC) e Royal Institute of British Architects (RIBA).”


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